Zora, agora!

Por Cahoni Chufalo

Zora Neale Hurston (1891-1960) fez recentemente uma aparição no meio da cultura pop. No primeiro episódio da segunda temporada da série “Ela quer tudo”, dirigida por Spike Lee e disponível no Netflix, Nola Darling, a protagonista, lê o trecho inicial do romance “Seus olhos viam Deus”, de Zora.

A Zora-pop, pronta para se tornar um ícone da cultura negra norte-americana, em tudo contrasta com o longo ostracismo em que ela e sua obra caíram. Em poucos anos, Zora passa de escritora e antropóloga renomada e premiada ao esquecimento. No fim da vida passou apertos financeiros e teve que se virar como empregada doméstica1 e com o auxílio do seguro-desemprego.

Esquecida por quase 30 anos, Zora ressurge pelas mãos de Alice Walker, a autora de “A cor púrpura”, que em 1975 escreve o ensaio “Em busca de Zora”. Ao relatar sua busca pelo túmulo da escritora, Alice ressuscita-a para o público em geral.

No Brasil, temos publicado apenas o romance citado acima, “Seus olhos viam Deus”. Se não é muito, é o suficiente para perceber o tipo de escrita e o teor do pensamento da autora.

O romance conta a história de Janie Crawford. Menina negra, nascida de um estupro, abandonada pela mãe, criada pela avó numa casa de brancos. Cenário perfeito para a construção de uma personagem que nasce com todas as adversidades e ou as supera, ou é por elas superada.

É tentador relacionar a protagonista com a própria Zora, ainda mais tendo esta uma biografia tão rica e incomum. Para mostrar como seria fácil fazer essa relação, basta um pequeno detalhe: o pai de Zora foi prefeito de Eatonville; Janie foi esposa do prefeito de Eatonville, seu segundo marido.

Se esse é um detalhe menor, menor não é o fato de ambas terem personalidades fortes e independentes. Não se curvam às imposições familiares, sociais ou culturais. Buscam o próprio caminho.

Janie, por exemplo, achou seu modelo na natureza. Deitada sobre uma pereira, vendo abelhas polinizando flores, teve a revelação: “Então aquilo era um casamento!”. Essa descoberta moldou suas relações. Só aceitaria para si algo daquele tipo, com aquela beleza e aquela intensidade. Não aceitaria nada menos.

A metáfora da árvore como vida e das abelhas polinizadoras como o amor reaparecem algumas vezes ao longo do livro. A proximidade com a natureza mostra como Janie transcende as imposições sociais. Quer buscar a si, satisfazer a si, a despeito do que dizem amigos, família ou as futricas alheias.

Janie casa-se três vezes. Só é feliz no último casamento. Passa a vida descobrindo uma vida interior que vai se revelando no confronto com as limitações impostas a ela. E essa vida interior é o que lhe dá forças e liberdade para ousar ser quem ela quer ser.

Assim, quem sabe, como Zora. Ambas, Zora e Janie, esquivam-se de amarras externas. Celebram o indivíduo. E mostram que a vida, no final das contas, é indomável para qualquer camisa de força ideológica, social ou cultural. Seria exagero dizer que “Seus olhos viam Deus” é urgente para nossos dias?


1- No ensaio Em busca de Zora, Alice Walker conversa com um médico que conheceu Zora e sua família. Num dos trechos, ele diz que Zora havia vendido um houseboat (uma casa flutuante, um barco-casa) que ela tinha em Daytona e então voltou para Fort Pierce. Ele diz que Zora vivia desse dinheiro, e que trabalhou depois como empregada doméstica para escrever um artigo sobre empregadas domésticas. Depois trabalhou para um jornal escrevendo a coluna de horóscopo. O fato é que Zora passou por grandes dificuldades financeiras no fim da vida e, após ter tido um derrame, morre num asilo.

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